14/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 13/03/2010 às 18:47:54
Uma folia nada franciscana
Como não passei o Carnaval nesta alegre Vila de N. S. dos Pinhais, somente agora fiquei sabendo dos festejos momescos promovidos pelo Colégio Bom Jesus desta capital, na sexta-feira que antecedeu o tríduo, hoje "quadruo" ou "quintuo". Pelo menos na sede da Alferes Poli, a animação foi total e surpreendeu a paróquia. Alguns fiéis, porém, ficaram indignados. E têm sólidos motivos para isso. Um dos afrontados foi o designer gráfico Maurício Simões, gente da melhor espécie e, por acaso, ex-aluno do tradicionalíssimo estabelecimento de ensino curitibano.
O bom Maurício estudou no Bom Jesus durante 10 anos. Sempre teve orgulho disso porque sabia que ali lecionavam os melhores professores e dali saíam os melhores profissionais. Mais do que isso: os melhores cidadãos. "No Bom Jesus", assinala, "além da excelente formação que tive, aprendi, entre outras coisas, a respeitar o próximo, graças às rigorosas regras de boas maneiras mantidas no colégio. Era o estilo franciscano de ensino, alicerçado no lema Paz e Bem".
Pois na sexta-feira véspera de Carnaval o lema "Paz e Bem" franciscano tirou folga ou rendeu-se aos deuses pagões Baco, Dionisio e Saturno. Conta Maurício que, durante todo o dia, nos períodos da manhã e da tarde, a vetusta escola patrocinou uma autêntica festa de arromba, com direito a som no mais alto volume, "vociferando músicas de gosto duvidoso", sem faltar monitores contratados para "animar a galera". Ele concorda que cada um tem o direito de fazer o Carnaval que quiser. Até mesmo o outrora austero e rigoroso Colégio Bom Jesus. Mas justamente na quadra de esportes que confronta com a Santa Casa de Misericórdia, a pouquíssimos metros de distância, é demais, para dizer-se o mínimo!
Naquela sexta, Maurício precisou internar, às pressas, o pai naquele hospital. Conta: "Depois dos exames preliminares, ele foi conduzido a uma unidade de terapia semi-intensiva, cujas janelas tremiam com o volume do som que vinha da festa vizinha. Sequer era possível às pessoas conversar dentro do hospital, precisando gritar para serem ouvidas" - desabafa Maurício. E pontua: "Não fosse em nome do bom-senso e do respeito ao próximo, o nosso Bom Jesus deveria saber que existe uma lei municipal, a 10.625/2002, em plena vigência, que define "como zona de silêncio a faixa determinada pelo raio de 200m (duzentos metros) de distância de hospitais, escolas, bibliotecas públicas, hotéis, postos de saúde ou similares'. A própria Santa Casa faz questão de exigir o máximo de silêncio de funcionários, doentes e visitantes, ciente de que o ambiente silencioso contribui consideravelmente para a recuperação dos pacientes".
Isso tudo pouco importou aos foliões do Bom Jesus. O terror prolongou-se por cerca de duas horas no período matutino, repetindo-se à tarde. E o pai do Maurício, que não era o único enfermo ali internado e que necessitava de atendimento e sossego, foi obrigado a suportar, durante todo esse tempo, a gritaria infernal de Xuxa, Cláudia Leite e outras divas da baderna proibida. O que teria acontecido com a "Paz" e o "Bem" pregados outrora pelos então discípulos de Francisco de Assis?
Vale acrescentar que o Maurício telefonou para o colégio. Como sói acontecer em tais ocasiões, depois de transferido para quatro atendentes diferentes, no final ainda foi obrigado a ouvir gracinhas como: "Ora, não seja mal-humorado. Afinal, é Carnaval!"
Desencantado, Maurício conclui com um comentário, bastante pertinente, aliás: "De fato, era Carnaval. E não havia época melhor para cair a máscara do atual Bom Jesus. Bons tempos aqueles em que o prof. Schmidt punha ordem nas coisas!..."
Pois é, meu caro Maurício, de duas, uma: ou o Carnaval já não é mais aquele ou é o nosso Colégio Bom Jesus, de tanta tradição e bons serviços prestados à educação, que está desbordando das caneletas...
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Claudio Schamis
Guia do Eleitor (muito) Curioso!