11/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 10/03/2010 às 20:17:31
O terceiro governo de José Dirceu
Antonio Carlos Pannunzio
Artífice do mensalão no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senhor José Dirceu de Oliveira e Silva foi apeado do posto de ministro-chefe da Casa Civil, teve cassado o seu mandato na Câmara dos Deputados e perdeu, temporariamente, os seus direitos políticos.
Nada disso o tem impedido de manter-se como uma das figuras mais influentes do governo federal, o homem que tudo sabe daquilo que ali acontece e, principalmente, do que está para acontecer, dono de conexões importantíssimas dentro do esquema e, por isso, capaz de influenciar diretamente o rumo das decisões no Palácio do Planalto.
Seu ressurgimento público, por conta da costura que realizou para, num passe de mágica, transformar uma empresa falida no eixo do programa governamental de universalização da banda larga e as homenagens, tão discretas quanto calorosas, de que foi alvo do congresso do PT que ungiu Dilma Rousseff como pré-candidata do partido à sucessão presidencial evidenciam o papel central que, nos bastidores, continua a desempenhar na corte.
Alguns dias antes da magna reunião petista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou pela primeira vez, de maneira aberta, acerca de seus planos futuros. Disse com todas as letras que, se Dilma for eleita, terá de parte dele caminho aberto para concorrer a um segundo mandato, pois não cogita de candidatar-se a presidente em 2014. Acredita o chefe do governo que sua atual ministra-chefe da Casa Civil, caso vitoriosa na eleição de outubro, imunizará o País contra qualquer proposta que envolva o regresso do
atual presidente.
As declarações do presidente, ainda que sujeitas, como toda manifestação dessa natureza, a alterações futuras, arreda parcialmente a inquietação acerca de uma continuidade do seu mando pessoal. Acontece que, como se constatou no congresso petista, elas não previnem, nem evitam, a continuidade da atuação do senhor José Dirceu como eminência parda do governo.
No segundo mandato do presidente Lula, em condições formalmente muito desfavoráveis, ele continua a definir propostas estratégicas a serem assumidas pelo governo, atropelando as funções dos atuais ocupantes de ministérios. E o chefe do governo, aparentemente muito cioso do seu poder de comando, faz de conta que não vê as ingerências do velho companheiro.
Admita-se, por hipótese, que o Brasil venha a ter um governo chefiado pela atual ministra-chefe da Casa Civil. Esta, ao contrário de José Dirceu, é novata dentro dos quadros, hierarquias e tradições do universo petista. Em tal cenário, o ex-ministro não apenas continuará, mais do que influenciar, a apresentar propostas ao governo federal e alinhavá-las, decidindo, por interpostas pessoas, a destinação de vultosos recursos públicos. Fará muito mais do que isso, ampliando o poder de barganha com os companheiros “do seu tempo”, instalados nos múltiplos escaninhos do aparelho do Estado.
Isso não seria, sequer, uma novidade na América Latina. No México, durante o longo ciclo de controle do poder político pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), os presidentes se sucediam regularmente, sem reeleições. Mas o efetivo comando do Estado permanecia, ano após ano, em mãos da burocracia do único partido em condições de disputar o poder.
O risco do 3.º mandato parece conjurado. Subsiste, entretanto, o do 3.º governo de José Dirceu por trás dos bastidores, mais difícil de ser evitado e, dado o seu caráter informal, quase impossível de ser controlado.
Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) é deputado federal, membro da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi líder de bancada e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo.
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