19/03/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 18/03/2010 às 20:16:01

Tucanos em polvorosa

Os números são para serem analisados com cuidado. A pré-candidata do PT à presidência da República, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, registrou um crescimento nas intenções de voto. Segundo a pesquisa CNI/Ibope, Dilma subiu de 17% na amostra de novembro para 30%. O presidenciável do PSDB, o governador José Serra, registrou queda, passando de 38% no levantamento anterior para 35% na nova leitura. Com isso, a diferença entre os dois candidatos caiu para cinco pontos porcentuais. O levantamento foi feito entre os dias 6 e 10 de março. A margem de erro é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos. A pesquisa mostra ainda o deputado federal Ciro Gomes (CE), pré-candidato do PSB, com 11% das intenções de voto e a pré-candidata do PV, a senadora Marina Silva (AC), com 6%. Na pesquisa anterior, divulgada em dezembro, Ciro tinha 13% e Marina, 6%. (...) O levantamento mostra ainda que 53% dos entrevistados preferem votar em um candidato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Bem, a tendência está cada vez mais perto de virar realidade. A ministra Dilma Rousseff está virando a disputa presidencial antes mesmo dela começar oficialmente - afinal, nem ela nem o governador paulista José Serra saíram de seus cargos, o que deve acontecer nos próximos dias. Mas a “onda Lula”, já conhecida de outras eleições (aconteceu pelo menos em três das cinco disputas presidenciais após o regime militar), está tomando conta do País e deixando os tucanos em polvorosa.

É bom recordar. Em 1989, Fernando Collor estava disparado na liderança das pesquisas, mas Lula, que chegou a ficar em quarto lugar, arrancou e levou a disputa para o segundo turno. Perdeu, mas muito pelas táticas de baixo nível dos “colloridos”. Em 2002, o então candidato petista teve um momento de instabilidade, mas no segundo turno literalmente “passou por cima” de José Serra. Na última disputa, a de 2006, o presidente cresceu tanto na reta final que fez o tucano Geraldo Alckmin passar pela constrangedora situação de ter menos votos no segundo turno que no primeiro.

Portanto, o PSDB sabe que Lula chega como um trator nestas disputas. E precisa urgentemente agir caso queira ser protagonista da eleição presidencial. O partido - e alguns aliados - tem nomes fortes em disputas estaduais, que podem dar fôlego ao governador de São Paulo a partir da desincompatibilização de abril. Só que é preciso dar alguma satisfação ao eleitorado, que a rigor vê apenas uma candidata em ação, Dilma. Marina Silva luta para ser conhecida, Ciro Gomes sonha em ser candidato, mas vê as portas se fechando e José Serra simplesmente sumiu. É certo, também, que o tucano ainda não entrou em ritmo de campanha. Algo que não aconteceu pelas bandas do PT, onde Dilma não se desgruda do presidente Lula.

O governador precisa aparecer, precisa mostrar que é candidato e que pretende entrar de cabeça na campanha. O imobilismo de Serra deixa imóveis os tucanos, que não sabem o que fazer - se pressionam o governador a se manifestar, se esperam a hora certa (que pode até ter passado) ou se atacam o governo federal acusando Lula de estar fazendo campanha com o dinheiro público.

Enquanto os tucanos sofrem, Dilma Rousseff nada de braçada. Semana passada, em Curitiba, foi tratada com cortesia e com status de presidente da República. Está cada vez mais solta nos discursos, pois vem sendo trabalhada por Lula e por seus marqueteiros quase que diariamente. Logo pode deixar de ser um projeto de candidata, a “sombra” de que fala o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e tornar-se uma irresistível vencedora, partindo sem adversários para o Palácio do Planalto. Depende dela, depende de Lula, mas também depende da ação dos caciques do PSDB - ou, no caso, da falta de ação deles.

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